OS CASAIS VÃO-SE SEPARANDO DEVAGARINHO


Os casais vão-se separando. Devagarinho. Na lentidão dos dias. Por amuo, orgulho ou por comodismo, deixam de se abraçar, de se tocar. Esquecem-se de se olhar. De se ver. De notar as covinhas na cara. De reparar nas rugas que começam a surgir. De apreciar os gestos ou as atitudes. Deixam de querer conhecer a nova pessoa que a nossa pessoa de sempre se torna e acrescenta [todos os dias]. Deixam de observar. Com mente de principiante; como que conhecendo o outro pela primeira vez.

É tão fácil deixar de amar. Basta deixar de ouvir. De contar. De reconhecer. De enaltecer. De admirar.
Muito facilmente, as mágoas tomam conta da vida. As palavras tortas tomam o lugar de destaque. Os silêncios vencem as palavras. A rigidez e a frieza superam o calor e o toque.
A zanga que se faz notar de mansinho e que teima a surgir por insegurança ou por medo, dá lugar à solidão, ao afastamento ou à total individualidade na relação.

Os casais vão-se separando devagarinho. Quando esquecem de (se) olhar, além da corrida e banalidade dos dias.
Há quanto tempo não olhas nos olhos da tua pessoa? Há quanto tempo não escutas o seu coração a bater? Há quanto tempo não o(a) (re)conheces de novo? Uma e outra vez, todas as vezes que forem precisas.

Os casais quando querem, casam todos os dias. Casam-se sempre que voltam a encantar-se com a beleza da autenticidade do outro, com a sua coragem, com o seu sentido de humor, com a sua doçura, ou com o brilho do seu olhar. Casam-se sempre que olham e reconhecem no outro, o sentido e propósito de procurarem juntos crescer e expandir-se [um ao outro]. Casam-se sempre que se propõe a estar de facto para o outro. Mesmo lá no momento. Com presença, com confiança, com resiliência, para juntos ultrapassarem as amarguras e dificuldades da vida.

E vocês, há quanto tempo não se olham em silêncio durante uns minutos? Como te sentirias agora com esse olhar demorado e silencioso? Sentiste que estão afastados, distantes? Ou sentiste como se tivesses regressado a casa? Sentiste distância, desamparo e tristeza? Ou será que, apesar da pressa dos dias e dos desafios de uma relação a dois, sentiste união?

Silvia Coutinho