ABRAÇO

Acredito que qualquer pai ou mãe sabe responder sobre qual o melhor antídoto contra dói-dóis e medos. Aquele abraço-casa demorado e aconchegante, que protege a criança de qualquer lobo mau vestido de vírus que agora chegou até nós. O grande desafio não se trata de se saber as respostas ou mesmo o que fazer, mas sim de, perante o medo que a todos atinge neste momento, ser-se capaz de lidar com o impacto que as nossas emoções teimam em nos fazer mergulhar.

Muitas vezes, são as crianças que apresentam uma maior facilidade em expressar o que estão a sentir, ficando nós adultos mais atrapalhados e tensos por não conseguirmos lidar com as sombras que pairam em nós.


Mais do que entrarmos nesta roda vida de encher as crianças de informação e actividades e tpc’s para preencher o seu tempo e cabeça, que tal passarmos a Ser e a Estar de verdade? Ser espaço de contenção, onde consigamos receber as emoções que a criança possa estar a sentir? Neste período, verifico nas consultas que muitas crianças começam a verbalizar o medo da morte [a sua, a dos seus pais e a dos seus avós], um enorme stress e ansiedade por a sua rotina lhes ter sido retirada sem qualquer oportunidade de pré-aviso ou possibilidade de dizer até-já a todos os que habitam o seu coração.
Devido a esta ansiedade, começa-se a verificar, sobressaltos e alterações no sono, seja um sono com bastantes interrupções, seja com inúmeros pesadelos [nos quais o pavor que cabe na sua realidade estará a ser elaborado].


Talvez o mais importante agora seja que este isolamento que nos proporciona presença física, possa acima de tudo ressignificar presença emocional, onde consigamos ser casa e ninho seguro que protege e ampara os piores pesadelos que possam estar a morar nas cabecinhas e nos corações das nossas crianças.


Talvez o mais importante agora, seja apelar de vez à nossa humanidade e vulnerabilidade e fazer destas a nossa maior força. Sermos pessoas de verdade, pais e mães, imperfeitos,que nem sempre terão todas as respostas, mas cujo amor que nos ultrapassa o coração, nos afine os ouvidos, acerte o compasso dos nossos corações, seja capaz de desconstruir a tristeza que quer morar nas nossas crianças.

Silvia Coutinho 

Psicóloga Infanto-Juvenil | Terapeuta Familiar e de Casal