SER RESILIENTE

Nas consultas vamos encontrando cada vez mais sentimentos de ansiedade, desesperança e perda perante tudo o que estamos a viver e à medida que também as incertezas face ao futuro vão ganhando forma nos pensamentos. Todos estamos a ser tocados pela perda (seja ao nível da rotina, do sentimento de segurança, na saúde, no trabalho ou nos contactos com as nossas pessoas).

Pensar o que é, o que existe ou o que está a acontecer, é fundamental para o ser humano não adoecer. De nada nos ajudará fazer fugas para a frente ou entrar em negação face à intensidade emocional do momento presente. Mas olhar à nossa volta e lidar com a realidade, não é fácil, mesmo quando não nos pertence directamente a nós…. pertencerá a outro ser humano, a outra vida semelhante à nossa.

Olhar, pensar e sentir, poderá nestes dias promover o aumento do nosso nível de stress, colidindo por vezes com o desespero, a desesperança e a angústia. Contudo, entregarmo-nos e permitirmo-nos estilhaçar emocionalmente devido ao peso da situação, também poderá não ser a saída.

Sabemos, através de estudos realizados noutros momentos difíceis da história do mundo, que a tenacidade e resiliência poderão tornar-se inerentes à condição humana quando promovidos.

Viktor Frankl no seu livro “o homem em busca de um sentido” (leitura que recomendo), ensina-nos que nos momentos mais sombrios e de maior sofrimento, o ser humano consegue lidar com a dor e com o caos, desde que consiga encontrar o seu sentido, um propósito maior e com isso fazer nascer um rasgo de luz que o guiará na escuridão do momento de crise e dor.

Por norma, as pessoas mais resilientes apresentam reacções intensamente negativas face à crise e ao trauma. Experienciam desespero e stress ainda mais intensamente. Contudo, procuram criar um sentido ou descobrir um propósito maior ou mais profundo para o que estão a vivenciar. Nessa procura, sabemos que o ser humano não se torna mais feliz, mas algum tempo depois da crise, tende a apresentar menor alteração negativa no humor, sentido-se mais enriquecido, inspirado e com sentimento de pertença ao mundo. A aceitação, a afirmação, a coragem, a fé (fé espiritual, fé nos homens, fé na natureza, fé na vida,…) e a autotranscendência são aliados neste processo de busca de sentido e construção de resiliência.

Nesta procura de sentido e significado maior, a (auto) compaixão, a empatia perante o próximo, a prestação de serviços comunitários (todos estamos interligados) surge como algo que potência a esperança e alarga a nossa visão do mundo, deixando de estarmos apenas concentrados na nossa experiência e permitindo construir um olhar e sentido mais vasto e significativo.

Por outro lado, a psicoterapia poderá ser uma ferramenta fundamental para que através do olhar cru, duro e real dos acontecimentos do presente e as emoções vividas possam ir sendo elaborados, permitindo não adoecer e facilitar a construção de sentido e de significado da vivência para o próprio.

Assim, que este sentido de amor, de compaixão, de coragem, de esperança e comprometimento connosco e com o próximo, permita transformar-se em luz e resiliência para ultrapassar os momentos mais difíceis que teremos pela frente.

(A si, pergunto-lhe: como está a lidar com o isolamento? Como tem sido o seu olhar perante o sofrimento que hoje impera no mundo? Como tem procurado potenciar a sua resiliência e sentido de toda esta experiência tão intensa do ponto de vista emocional? Se estiver a ser demasiado duro, não hesite em procurar ajuda. Estamos aqui!)

Silvia Coutinho 

Psicóloga Infanto-Juvenil | Terapeuta Familiar e de Casal