O ABRAÇO QUE PODEREI NÃO DAR

Era Março quando as portas se fecharam, quando o mundo se tornou mais pequeno externamente [apenas para nós], mas tão maior internamente.

As ruas ficaram maiores, as filas de transito desapareceram e o tempo gerou tempo para estar e para ser.

A ameaça de uma doença tornou-nos vulneráveis e provocou-nos a necessidade de nos protegermos.

Emergiu em nós a noção de não controlo sobre o que estava a acontecer e consequentemente, o medo ganhou o primeiro lugar na competição das emoções mais presentes neste caminho de incerteza.

Não existem emoções boas ou más. Existem apenas emoções que nos impelem a agir de diferente forma. O medo sentido nestes tempos Covid, é sem dúvida, uma emoção adaptativa que nos permite equilibrar e viver nesta panóplia de emoções de todas as cores.

O medo é assolado pela incerteza de voltar a estar com quem amamos, com os nossos, com os que nos constituem e complementam.

Talvez este seja o maior receio da humanidade, perder quem é significativo. Perder quem nos apoiou até aqui.

E se aquele abraço que tanto ansiamos não surgir?

E se aquele olhar não se cruzar mais?

E se este vírus nos afastar para sempre?

Certamente estas questões já ecoaram em si. Certamente já as desviou vezes sem conta do seu momento presente por ser insuportável lidar com a ansiedade por elas provocada.

A morte será sempre o nosso maior temor e estará sempre de mão dada com o medo, que por sua vez, estará sempre lado a lado da ansiedade.

Que nestes tempos incertos, possamos fazer o melhor para protegermos todos e reduzirmos a probabilidade dos abraços que não serão dados.

Que possamos integrar no nosso dia a dia, hábitos de bem-estar que nos reduzam as sintomatologias associadas ao medo. A prática diária de um momento de meditação, poderá tornar-se o abraço pessoal que devolve algum conforto.

Não somos todos iguais. Pensamos todos de forma diferente. Esta pandemia não surgiu para mudar a humanidade [não temos esse poder sobre o universo], mas podemos melhorar algumas coisas em nós advindas desta adversidade não controlada. Não estamos todos a experienciar as mesmas emoções, mas estamos todos a viver esta situação mundialmente em uníssono e temos todos a possibilidade de tornar esta adversidade numa consequência menor.

Sejamos responsáveis pela possibilidade de voltar a dar aquele abraço.

Eu quero voltar a abraçar os meus. E você?

Com amor,

Débora Água-Doce