REINVENTAR O REGRESSO

Era Março quando as portas se fecharam, quando o mundo se tornou mais pequeno externamente, mas tão maior internamente.

As ruas ficaram maiores, as filas de transito desapareceram e o tempo gerou tempo para estar e para ser.

A ameaça de uma doença tornou-nos vulneráveis e provocou-nos a necessidade de nos protegermos.

Emergiu em nós a noção de não controlo sobre o que estava a acontecer e consequentemente, o medo ganhou o primeiro lugar na competição das emoções mais presentes neste caminho de incerteza.

É Junho e somos convidados a abrir as portas!

As ruas começam a vestir-se de cor e de gente. O cheiro da natureza mistura-se com os cheiros da rotina, cheiros de gente, cheiros de antes, cheiros de agora…

É Junho, passou metade do ano e connosco reside uma inquilina não desejada: a sensação de não termos vivido. Sente isso?

Convido-o a olhar para o fechar de portas a que fomos expostos, como uma janela de oportunidade para apreciar o essencial.

A vida é uma sucessão de acontecimentos, um malabarismo entre o bom e o mau. Contudo, não existem emoções boas ou más. Existem apenas emoções que nos impelem a agir de diferente forma. O medo sentido nestes tempos Covid, tem sido, sem dúvida, uma emoção adaptativa que nos tem permitido equilibrar e viver esta panóplia de emoções.

É no encontro do equilíbrio para continuar a caminhar, que serve de consolo a impotência que nos é inerente e a resiliência para continuar a olhar para a frente.

Perante o convite de abertura de portas, ecoam certamente, um misto de pensamentos e emoções dentro de si. Por um lado, a vontade de voltar, voltar a algo mais parecido com o antes, por outro lado, o receio desta nova realidade e ainda a tristeza de deixar as rotinas que se instalaram nestes mais de dois meses. Digo tristeza, pois, primeiro estranhamos o desconhecido e resistimos, mas depois adaptamo-nos e reinventamos rotinas, tornando o desconforto num momento confortável. Quando as emoções se tornavam adaptativas, fomos convidados a sair novamente da nossa zona de conforto.

É Junho e somos chamados a regressar.

Somos impelidos a fechar um ciclo e a iniciar uma nova caminhada. Uma caminhada que certamente trará obstáculos, nem que sejam, as emoções ao lidar com o desconhecido e a incerteza.

Convido-o a interiorizar que não importam os obstáculos e as dificuldades que nos surgem, mas sim a forma como os ultrapassamos.

Vamos fazer deste recomeço, um barómetro de evolução pessoal.

Que possamos integrar no nosso dia a dia, hábitos de bem-estar que nos reduzam as sintomatologias associadas ao medo. Que possamos passar mais tempo a olhar para dentro e avançar nesta jornada de autoconhecimento que nos permite evoluir. Que possamos ter mais tempo para o que realmente importa: as relações.

Deixo-vos a sugestão de uma prática diária de meditação, que poderá tornar-se o abraço pessoal que devolve algum conforto bem como o momento de autodescoberta.

Os recomeços serão sempre uma oportunidade de evolução. No momento não aceitamos nem entendemos alguma dor que possamos sentir nem a adversidade, mas depois… Depois percebemos a importância da reinvenção de nós e do mundo que conhecemos.

Para este regresso, também vos convido a refletir sobre as seguintes questões:

* Como avalia esta mudança obrigatória na sua vida?

* Quais as maiores dificuldades que sentiu?

* O que foi agradável?

* Vai sentir saudades de: __________________________

* Aprendeu que: ________________________________

* Gostava que as novas rotinas incluíssem: ____________________________

* Sente gratidão por: _________________________

Termino com um lembrete: A maior capacidade de adaptação ao “regresso”, reside nas escolhas que fazemos diariamente face aos pensamentos e emoções que experienciamos. Não reside em nós o poder de controlar o que acontece à nossa volta nem fazemos futurologia. Mas temos controlo sobre o que escolhemos “ruminar”. É necessário criar e preservar hábitos de autocuidado e gerir da melhor forma as emoções que nos assolam pelo que não controlamos. Com consciência, momento a momento, de cada emoção e pensamento.

Desejo-vos um regresso reinventado de oportunidades felizes.

Com amor,

Débora